
Após pouco mais de dois anos da presença da ONU no Haiti, andar pelas ruas de Porto Príncipe ainda é uma aventura e uma experiência impactante. A cidade tem um colorido especial, é verdade, mas é o retrato de uma sociedade depredada por séculos de domínio autoritário e predatório.
A miséria é endêmica, claramente visível em toda a cidade. Na saída do porto, onde você é obrigado a passar ao largo de um conjunto de favelas, a imagem é estarrecedora. Montanhas imensas de lixo ao longo das ruas, casebres montados com qualquer tipo de material que seja encontrado, crianças andando por esse cenário completamente desprotegidas, brincando na água contaminada com os resíduos do lixo. A ausência de quaisquer condições de vida chega a doer, é algo caótico mesmo se comparado aos locais mais problemáticos do Brasil. Mais de 80% da população do país vive abaixo da linha de pobreza, segundo dados de 2003. Nas áreas mais centrais da cidade a situação é menos perturbadora, pois Porto Príncipe é uma cidade de grande porte, com aproximadamente dois milhões de habitantes. A cidade tem uma estrutura urbana bem formada, mas extremamente deteriorada. É possível distinguir alguns bairros com construções típicas da nossa classe média, além de localidades mais simples que não chegam a ser favelas. O que é praticamente onipresente é o lixo nas ruas, em maior ou menor quantidade, mas sempre lá. Num contraste com o luxo de alguns locais, como na parte alta da cidade, com grandes casas e terrenos imensos perfeitamente bem cuidados, e vigiados.
Outro detalhe que chama a atenção é a luz elétrica. Uma boa parte da cidade não conta com abastecimento regular de eletricidade. Andar a noite pelas ruas nessas áreas é talvez retornar ao século XIX, onde o que você vê é o breu total na via e as luzes mortiças das velas e candeeiros no interior das casas. Quem tem condições banca sistemas de geradores de energia, o que não é o usual em meio a tanta pobreza. A principal iluminação nas ruas acaba sendo os faróis dos carros.
O trânsito na cidade é um caso a parte, digno em alguns momentos de uma grande metrópole desenvolvida ou em desenvolvimento. Engarrafamentos são eventos corriqueiros e trafegar pela cidade em certos horários requer muita paciência e atenção. São poucos os sinais de trânsito e a organização do fluxo depende da boa vontade de cada motorista. A aglomeração de carros é impressionante, e parece que eles surgem de todos os lugares. A idade da frota haitiana é antiga, e boa parte desses engarrafamentos é causada por veículos que enguiçam no meio da rua, atravancando o fluxo. E nem sempre eles se posicionam de maneira a atrapalhar menos o andamento do tráfego... Principalmente se for um MACK, como eles chamam os imensos caminhões que rodam pela cidade (MACK é a marca da maioria dos caminhões usados no Haiti). Aí realmente a situação se torna um caos. Outra onipresente visão nas ruas de Porto Príncipe são os tap-taps. Principal meio de transporte da cidade, os tap-taps são caminhonetes e pequenos caminhões adaptados para transporte de passageiros. Entram também na categoria vans e pequenos ônibus. Parece haver entre eles uma disputa por quem é o mais chamativo, pois praticamente todos são pintados com cores vivas e desenhos variados, além de ostentarem todo tipo de mensagem nas latarias. O impressionante é que lá você se dá conta de que parece não haver limites para o número de pessoas transportadas por eles. Estão sempre abarrotados de gente, e a impressão é de que a qualquer momento eles podem tombar, levando todos os ocupantes junto. Outro detalhe do trânsito é que não há muita benevolência por parte dos motoristas. Manobras imprudentes e fechadas são uma constante. Mesmo os carros menores da ONU não gozam de total respeito. Rodando com um jipe branco dos Fuzileiros, com quatro soldados a bordo, era raro algum motorista permitir a passagem com mais rapidez, e por algumas vezes se fez necessário um dos soldados sair do jipe para dar uma rápida controlada no trânsito para que fosse possível prosseguir com mais agilidade, sem ficar completamente preso no tráfego pesado. E também no trânsito é possível notar os contrastes: velhos carros caindo aos pedaços ao lado de modelos novíssimos estalando de novos.
Ai foi um pouco do que os Militares do Exército Brasileiro enfrentam no Haiti
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